Cidade fantasma legislativa: O dia seguinte em Francisco Alves após a queda de 77% da Câmara

Publicado em 05/06/2026 por Rádio Nova FM

Brasil e Mundo

Fonte: Foto Arte/GloboNews


FRANCISCO ALVES, PR — O silêncio que ecoa no plenário da Câmara Municipal de Francisco Alves nesta semana é o reflexo físico de uma decisão judicial sem precedentes na história recente do interior do Paraná. Após a cassação de sete dos nove vereadores da cidade por um esquema de compra de votos apelidado localmente de "boca de urna do posto de gasolina", o município de pouco mais de seis mil habitantes tenta entender como a engrenagem pública vai continuar girando com apenas dois parlamentares na ativa.

A pacata rotina da cidade deu lugar a um misto de indignação e incerteza. Nas calçadas e comércios centrais, o assunto é um só: como a política local trocou o debate de propostas por pequenos pedaços de papel que valiam cinco ou dez litros de combustível.

"A gente fica pensando como vai ser agora. Quem vai votar os projetos da cidade? Quem vai fiscalizar o prefeito? Fomos notícia nacional pelo pior motivo possível", lamenta o comerciante aposentado Getúlio Medeiros, 63 anos.

O "QG" a 10 quilômetros do centro

As investigações do Ministério Público do Paraná (MPPR), lideradas pelo promotor Filipe Rocha e Silva, revelaram que o coração do esquema não batia nos gabinetes oficiais, mas sim nas bombas de um posto de combustíveis localizado na rodovia, a cerca de 10 quilômetros da zona urbana.

Foi lá que a Polícia Civil, em uma operação na véspera do pleito de 2024, apreendeu o "mapa da mina": notas fiscais emitidas em lote, cadernos com nomes de eleitores e os infames vales-combustível. No total, a coligação 'Pra Frente Francisco Alves' escoou 2.100 litros de gasolina e álcool diretamente para os tanques de moradores em troca de promessas de apoio nas urnas.

Para especialistas em direito eleitoral, o caso de Francisco Alves ilustra uma triste herança do coronelismo, adaptada para os tempos modernos. A coação econômica substituiu o debate de ideias, transformando o direito ao voto em uma mercadoria de consumo imediato.

Impasse institucional: E agora?

Com a cassação de quase 80% do poder legislativo, Francisco Alves entra em um limbo jurídico e administrativo. Os dois únicos vereadores que restaram não têm o quórum mínimo necessário para abrir sessões, votar projetos de lei urgentes ou aprovar repasses de verbas para áreas críticas, como saúde e educação básica.

O Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PR) deve definir nos próximos dias os detalhes para a convocação de uma eleição suplementar ou a recontagem de votos para a posse de suplentes que não estejam envolvidos no esquema da coligação.

Enquanto a burocracia judicial corre em Curitiba, os moradores de Francisco Alves olham para o prédio da Câmara sabendo que, por um bom tempo, o poder público local estará operando em bandeira vermelha — e com o tanque completamente vazio de credibilidade.

(Com informações de O Valor do Voto, GloboNews)