Moraes enquadra caso em inquérito do STF e ordena buscas contra suspeita de fonte de jornalista
Publicado em 13/08/2026 por Rádio Nova FM
Uma nova fase da operação da Polícia Federal (PF) autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) mira uma suposta rede de monitoramento ilegal contra o ministro Flávio Dino e seus familiares. Sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, a ação cumpriu mandados de busca e apreensão contra um ex-secretário do governo do Maranhão, apontado como suposta fonte de um jornalista local, e contra um advogado suspeito de financiar publicações de interesse do grupo político investigado.
A investigação, que corre sob sigilo, provocou reações imediatas da defesa dos citados e de entidades de imprensa, que alertam para os riscos de violação à proteção constitucional do sigilo da fonte.
Origem da controvérsia: denúncias e acusação de monitoramento
A apuração teve início após a veiculação de reportagens pelo jornalista Luís Pablo Conceição Almeida, do Blog do Luís Pablo. As matérias afirmavam que o ministro Flávio Dino e sua família estariam utilizando, de forma contínua em deslocamentos privados em São Luís (MA), um veículo oficial pertencente ao Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA).
A equipe do ministro rebateu as acusações, classificando-as como "repetição de inverdades", e esclareceu os pontos centrais da controvérsia:
Segurança institucional: O uso do veículo blindado do TJ-MA ocorreu a pedido da Secretaria de Segurança do STF, respaldado por acordos de cooperação técnica existentes entre o Supremo e os tribunais do país.
Alertas de risco: A assessoria de Dino informou que, desde 2025, a equipe de segurança identificou um esquema de "monitoramento ilegal", com o acompanhamento contínuo de itinerários, divulgação de placas de carros e identificação de agentes de proteção.
Perseguição ampliada: As investigações da PF indicam que até mesmo os veículos particulares da família do ministro estariam sendo seguidos e monitorados.
A PF investiga também se houve acesso indevido e ilegal aos sistemas do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) e do TJ-MA para obter as informações sobre a frota.
Os alvos da operação e o avanço no STF
A partir da análise do celular do jornalista apreendido em etapa anterior da operação em março, a PF identificou a suposta origem dos vazamentos e possíveis conexões financeiras:
Raimundo Cutrim: Ex-secretário de Assuntos Legislativos do Maranhão, delegado aposentado da PF e ex-deputado estadual. Apontado na decisão como a provável fonte das informações repassadas ao blogueiro. Cutrim já cumpre prisão domiciliar por determinação do próprio ministro Dino em outro processo, referente a suposta coação e obstrução de justiça.
Advogado investigado: A PF identificou uma movimentação financeira de R$ 100 mil enviada por um advogado ao jornalista, valor que teria sido utilizado para a compra de um terreno. A polícia apura se a quantia está vinculada ao patrocínio de publicações contra o ministro.
O caso tramitou inicialmente sob relatoria do ministro Cristiano Zanin, que identificou conexões com o Inquérito das Fake News e redistribuiu o processo para a relatoria de Alexandre de Moraes.
Posição das defesas e reação das entidades de imprensa
A defesa de Raimundo Cutrim, representada pelo advogado Berilo Freitas, expressou forte preocupação com os rumos do processo. Freitas ressaltou a estranheza de ver investigados o jornalista, sua fonte e o advogado que o orientou, sem que as denúncias originais sobre o uso dos veículos fossem o foco da apuração principal. A defesa negou qualquer relação entre Cutrim e o advogado alvo da ação, bem como qualquer repasse financeiro atrelado às reportagens.
O jornalista Luís Pablo também negou irregularidades, afirmando que os valores citados não possuem relação com a sua atividade profissional e que não recebeu pagamentos para veicular reportagens sobre o ministro.
"A busca e apreensão em razão de informação jornalística abre um precedente muito perigoso. É uma séria ameaça à liberdade de imprensa, porque a Constituição, em seu artigo 5º, inciso XIV, é taxativa em proteger o sigilo da fonte quando necessário para o exercício profissional."
Marcelo Rech, presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ)
Em nota conjunta, a ANJ, a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) e a Aner (Associação Nacional de Editores de Revista) demonstraram "profunda preocupação" com as medidas tomadas, destacando que ações judiciais que resultam na quebra do sigilo da fonte carecem de amparo na Constituição de 1988 e ameaçam o livre exercício do jornalismo no país.
