Policia Federal desarticula "simbiose" financeira entre deputado e desembargador afastado em Mato Grosso
Publicado em 09/06/2026 por Rádio Nova FM
Uma complexa estrutura financeira e patrimonial desenhada para ocultar vantagens indevidas e mascarar a origem de dinheiro ilícito. É o que apontam as investigações da Polícia Federal (PF) envolvendo o desembargador afastado Dirceu dos Santos, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), e o deputado estadual Faissal Calil (PL). Segundo a PF, o parlamentar atuava como "laranja" e operador financeiro do magistrado.
A engenharia do esquema foi desnudada a partir de dados extraídos de celulares, relatórios de inteligência financeira e dados compartilhados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Os investigadores identificaram saques e depósitos suspeitos que, somados, chegam a R$ 3,2 milhões.
A engrenagem do esquema: Confiança e proximidade
A relação entre os dois investigados é antiga. Faissal trabalhou diretamente no gabinete de Dirceu dos Santos entre os anos de 2017 e 2018, antes de ser eleito deputado estadual e assumir a cadeira na Assembleia Legislativa em 2019. De acordo com a PF, o parlamentar transformou-se em uma pessoa da estrita confiança do magistrado, tornando-se o homem de frente para operacionalizar o fluxo de dinheiro.
A investigação sustenta que Faissal funcionava como um intermediário multifuncional. Cabia a ele:
Receber recursos de origem suspeita;
Quitar despesas familiares do magistrado;
Negociar imóveis por meio de terceiros para dar aparência legal às transações.
O conceito da Operação Gemini O nome da operação (do latim "gêmeos") resume a dinâmica criminosa. A PF identificou que um lobista do esquema salvou o operador financeiro do gabinete em sua agenda telefônica sob essa alcunha. No plano jurídico e de inteligência, o termo reflete uma "perfeita coautoria funcional": enquanto o desembargador vendia decisões na esfera formal do Estado, o deputado operava no plano informal como seu "espelho financeiro" para ocultar o patrimônio.
O elo com o Agronegócio e patrimônio incompatível
A quebra de sigilos bancários revelou uma movimentação financeira completamente incompatível com a realidade declarada pelos investigados. Um dos pontos centrais da investigação aponta que empresas ligadas ao agronegócio — que possuíam processos e disputas judiciais em tramitação no próprio TJMT — realizaram transferências financeiras substanciais para o esquema, sem qualquer justificativa de negócios aparente.
Atualmente, o patrimônio total do desembargador Dirceu dos Santos é avaliado em mais de R$ 16 milhões, cifra que a PF aponta ser desproporcional aos subsídios da magistratura.
Entre os bens sob lupa está um apartamento de R$ 1 milhão localizado no Edifício Vila Real, no bairro nobre Duque de Caxias, em Cuiabá. Na descrição oficial dos bens, o imóvel consta como adquirido "por permuta" em uma sociedade conjunta entre o desembargador e o deputado Faissal Calil.
Histórico de afastamento
Dirceu dos Santos já cumpre medida de afastamento do cargo desde março, por determinação do CNJ. O conselho apura suspeitas de obtenção de vantagens indevidas e a suposta troca de decisões judiciais por favorecimento financeiro.
