Engenharia da Propina: Como Funcionava o Suposto Caixa 2 de R$ 30 Milhões em Mato Grosso
Publicado em 17/06/2026 por Rádio Nova FM
O escândalo de corrupção que atinge o deputado federal Juarez Costa (Republicanos), baseado nas delações premiadas de ex-executivos da concessionária Aegea homologadas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), revela um complexo manual de como ocultar dinheiro ilícito. Muito além do montante de R$ 30 milhões e de um carro de luxo, os depoimentos detalham a engrenagem usada para abastecer o esquema enquanto o parlamentar era prefeito de Sinop (2009–2016).
As investigações, que agora correm em sigilo no Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) e em dois inquéritos na Justiça Federal, apontam para três métodos principais de escoamento e lavagem de capital.
1. O "Bônus" sobre Rodas e a Intermediação
O primeiro grande rastro da operação surgiu em 2014. Segundo o ex-presidente da Aegea, Hamilton Amadeo, o então prefeito solicitou uma BMW como parte do acordo para alterar leis municipais em benefício da empresa de saneamento.
Para que o veículo de R$ 330 mil não fosse rastreado até a concessionária, utilizou-se uma triangulação:
O Comprador Formal: O ex-diretor financeiro Flávio Crivellari confirmou que a compra foi feita por meio do consultor Eduardo Valdívia.
O Papel do Intermediário: Valdívia atuava como uma "camada de proteção" entre a empresa privada e o agente público, blindando os verdadeiros envolvidos na transação do automóvel de luxo.
2. Triangulação com Construtoras e Combustível Fictício
A partir de 2015, com o avanço dos contratos, o volume de dinheiro exigiu métodos mais sofisticados de geração de dinheiro em espécie (o chamado "caixa dois"). O ex-diretor administrativo Felipe Bueno Marcondes Ferraz revelou duas táticas:
Sobrepreço em Obras: Uma construtora terceirizada era contratada pela Aegea por valores inflados. O excedente pago a essa empresa retornava em dinheiro vivo para abastecer o esquema de Juarez Costa.
Simulação de Combustível: O grupo movimentou mais de R$ 3 milhões em operações completamente fictícias de compra de combustíveis em postos de gasolina na cidade de Sinop, gerando notas fiscais falsas para justificar a saída do dinheiro.
3. A Rota Interestadual do Dinheiro Vivo
Para a entrega do dinheiro, a engenharia financeira do esquema montou uma rota logística que cruzava o país para evitar o sistema bancário tradicional. Intermediários faziam as entregas em espécie em três pontos estratégicos de alta movimentação econômica e turística: Os encontros para a retirada dos recursos visavam pulverizar as operações longe de Sinop, onde o escândalo poderia chamar a atenção local.
O Outro Lado: Procurado para responder às graves acusações feitas pelos ex-dirigentes da concessionária de saneamento, o deputado federal Juarez Costa não se manifestou até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para a defesa do parlamentar.
