R$ 2,9 Milhões Retidos e Dinheiro em Espécie: O Cerco do Gaeco à Cúpula de Campo Verde
Publicado em 02/07/2026 por Rádio Nova FM
A pacata rotina administrativa da Prefeitura de Campo Verde (MT) foi chacoalhada por uma força-tarefa que ligou o município a um velho conhecido das investigações de corrupção no estado. A segunda fase da Operação Gomorra, deflagrada pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), resultou no bloqueio judicial de mais de R$ 2,9 milhões e colocou o prefeito Alexandre Lopes de Oliveira (União Brasil) e o primeiro escalão do município na mira da Justiça.
O principal reflexo político da operação até aqui é o afastamento imediato do secretário municipal de Obras, Rubens Anunciação Júnior, além de outros três servidores públicos. Ao todo, foram cumpridas 26 ordens judiciais entre Cuiabá e Campo Verde, incluindo buscas em empresas, residências e na própria sede do governo municipal, onde policiais apreenderam R$ 17 mil em espécie na casa de um dos investigados.
O Efeito Dominó: De Barão de Melgaço a Campo Verde
Para entender o tamanho do cerco atual, é preciso voltar a 2024. A primeira fase da Operação Gomorra começou investigando fraudes parecidas em Barão de Melgaço. Naquela época, o Núcleo de Ações de Competência Originária Criminal (Naco) descobriu um rastro de adulteração de notas fiscais, superfaturamento e o uso de um "cartão coringa" para desviar combustíveis por meio da empresa Centro América Frotas entre 2020 e 2024.
O que parecia um problema isolado revelou-se um modelo de negócio fraudulento. O grupo utilizava "atas de registro de preços" (mecanismo legal que permite a uma prefeitura pegar carona em licitações de outra) para expandir o esquema para outras administrações, como Campo Verde.
Como funcionava o esquema: Empresas ligadas ao grupo assinavam contratos de prestação de serviços e gestão de frotas com o poder público. A partir daí, a execução dos contratos passava por adulterações que iam do refino de notas fiscais ao desvio direto de recursos, com a conivência ou facilitação de agentes públicos.
O Raio-X das Medidas Judiciais
O volume de ordens autorizadas pelo Judiciário mostra a gravidade e o nível de organização do grupo:
| Tipo de Medida | Quantidade | Alvos / Objetivo |
| Indisponibilidade de Bens | 13 ordens | Garantir o ressarcimento de R$ 2,9 milhões aos cofres públicos |
| Busca e Apreensão | 8 mandados | Residências, sedes de empresas e a Prefeitura de Campo Verde |
| Afastamentos Cautelares | 4 servidores | Inclui o Secretário de Obras, Rubens Anunciação Júnior |
| Quebra de Sigilos | Fiscal e Telemático | Rastrear o caminho do dinheiro e comunicações do grupo |
A operação contou com um forte aparato institucional, unindo o Naco e o Gaeco (braços do MPMT), a Polícia Civil e a Controladoria-Geral do Estado (CGE).
O "Fator Defesa" e o Alerta que Vinha de Dentro
Em sua defesa, o prefeito Alexandre Lopes de Oliveira tentou mudar a narrativa de que foi pego de surpresa. Em entrevista ao portal local Plantão da Notícia, Lopes afirmou que a própria prefeitura já vinha monitorando o caso desde que o Ministério Público alertou os municípios que tinham contratos com a empresa investigada.
Segundo o prefeito, a Unidade de Controle Interno de Campo Verde fez levantamentos e enviou a documentação ao Ministério Público, abrindo auditorias internas. O gestor minimizou o impacto político do afastamento de seu secretário de Obras e dos servidores, classificando a medida como "natural e preventiva" para garantir a transparência das investigações.
Agora, o material apreendido nas buscas que inclui documentos, mídias digitais e o dinheiro em espécie passará por perícia para determinar até onde ia a influência do grupo e se o modelo rígido de fiscalização alegado pelo prefeito realmente falhou ou foi deliberadamente burlado.
