Como uma Família de "Missionários" Virou Braço Logístico de Facção na PCE
Publicado em 16/07/2026 por Rádio Nova FM
Uma investigação minuciosa da Polícia Civil de Mato Grosso revelou que a fé era apenas uma fachada. Sob o pretexto de levar apoio espiritual a detentos, uma família de supostos evangelistas transformou um projeto religioso em uma verdadeira agência de inteligência, logística e lavagem de dinheiro para uma das maiores facções criminosas do país.
A farsa ruiu com a deflagração da Operação Fariseus, conduzida pela GCCO (Gerência de Combate ao Crime Organizado) e pela Draco. A ação cumpriu um mandado de prisão preventiva contra uma jovem apontada como operadora do esquema ao lado dos pais, além de buscas, apreensões de eletrônicos e o bloqueio imediato do acesso dos suspeitos a unidades prisionais.
O Esquema: Triangulação Financeira e "Salves" por Telefone
O grupo, que tinha livre acesso à Penitenciária Central do Estado (PCE) em Cuiabá para realizar cultos e prestar assistência, utilizava a proximidade com os detentos para fins estritamente criminosos.
As investigações apontam que a família atuava em quatro frentes principais:
Central de Recados: Intermediação de mensagens entre lideranças trancadas na PCE, comparsas em liberdade e criminosos foragidos.
Lavagem de Dinheiro "Gospel": Uso de contas bancárias de familiares e de terceiros para receber, fracionar e repassar dinheiro da facção. O esquema bancava desde veículos até viagens e procedimentos estéticos para os investigados.
Tráfico de Influência Prisional: Facilitação do trânsito de informações e articulação de novos contatos para a facção, que tem forte atuação também no Rio de Janeiro.
Tribunal do Crime: Em um dos áudios mais chocantes interceptados pela polícia, uma das investigadas aparece solicitando a aplicação de um "salve" (castigo físico severo) contra um homem suspeito de furto.
O que diz a defesa / O estado da investigação: Embora denúncias apontassem que o grupo tentava introduzir celulares e carregadores na área de segurança máxima da PCE, essa prática específica ainda não foi comprovada. Contudo, o material telemático já extraído revelou uma intimidade com o crime que vai muito além da caridade cristã.
De Mato Grosso ao Rio de Janeiro: Turismo Ostentação e Armas de Guerra
O que mais impressionou os investigadores foi a conexão direta da família com o Rio de Janeiro. Integrantes do grupo faziam viagens frequentes a comunidades fluminenses dominadas pela facção jornadas muitas vezes custeadas pelos próprios criminosos.
A análise de dados autorizada pela Justiça revelou um verdadeiro "álbum de família" do crime:
Turismo em áreas de conflito: Fotos e vídeos de membros do grupo na casa de um traficante foragido, posando sorridentes ao lado de fuzis, pistolas, carabinas e rádios transmissores personalizados com a sigla da facção.
Crianças armadas: Registros chocantes de crianças manipulando armas de fogo pesadas.
Videochamadas com tiros: Transmissões ao vivo entre mulheres do projeto e lideranças foragidas nas quais, em tom de descontração, comparsas apareciam disparando fuzis para o alto em comunidades cariocas.
Comércio ilegal: Diálogos que detalham a negociação para a venda de uma arma de fogo que a família escondia em uma propriedade rural.
A Origem do Nome: "Fariseus"
A escolha do nome da operação não foi por acaso. Na tradição bíblica, os fariseus eram figuras criticadas por aparentar extrema religiosidade e apego às leis sagradas em público, enquanto suas ações por trás dos panos eram guiadas pela hipocrisia e interesses pessoais.
Para a Polícia Civil, a analogia é exata: o grupo usava a bíblia e o acesso facilitado aos presídios para servir ao crime organizado.
Próximos Passos
Os suspeitos agora respondem formalmente por uma pesada lista de crimes:
Integrar organização criminosa
Lavagem de dinheiro
Corrupção de menores (devido à exposição de crianças às armas)
Tortura (pela intermediação de castigos físicos/salves)
A Polícia Civil segue analisando os celulares e computadores apreendidos. O foco agora é rastrear a rota completa do dinheiro movimentado pelas contas da família e identificar outras lideranças que possam ter se beneficiado do "serviço de leva e traz" dos falsos missionários.
